Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril de 1974, importa comemorar “Abril” e afirmar os valores da Democracia e da Liberdade. Nada pode motivar ou impedir o livre exercício dos direitos e deveres de cidadania.Esta revolução - que derrubou uma das ditaduras mais longas da história da Europa ocidental - distinguiu-se por um elemento muito especial: decorreu sem que fosse derramada uma única gota de sangue, pois, em vez de vomitarem fogo, as armas permaneceram silenciosas. E os cravos vermelhos, que foram lançados aos soldados, tornaram-se um símbolo nacional de liberdade e fraternidade.
Portugal era um país anacrónico, levava quase 50 anos de uma ditadura militar. Para os jovens de hoje será, provavelmente, difícil imaginar o que foi viver nesta altura onde era raro encontrar uma família que não tivesse alguém a combater em África. A expressão pública de opiniões contra o regime e contra a guerra era severamente reprimida pelo aparelhos censórios e policiais, as prisões políticas estavam cheias, o despedimento era facilitado e até a vida cultural era extremamente vigiada.
Três décadas e meia depois daquela madrugada, faz falta não esquecer Abril… Faz falta lembrar aqueles que conheceram o lado mais cruel da ditadura: os que sofreram a guerra, os que foram silenciados pela censura e os que viveram os horrores da repressão e tantos que souberam ser livres dentro de uma cela e viveram vidas de silêncio, de segredo e de medo, que era então o ar que se respirava. Quem viveu esse dia jamais o esquecerá e aquilo que era para ser mais um dia normal transformou-se num marco histórico, com um impacto tremendo na vida de muitas pessoas.
E se hoje, não estamos melhor do que poderíamos estar, a culpa não é da Revolução dos Cravos, é de todos nós, que não soubemos utilizar com dignidade, luta e verticalidade a liberdade que nos foi devolvida.
“Foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Sim, liberdade. Sobretudo aquela que sempre mais procurei honrar e me não canso de exaltar. A que pode ter naturalmente qualquer homem que se afirme como tal em todas as circunstâncias, e que não é um privilégio recebido, mas uma virtude intrínseca.” (Miguel Torga)





